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As musas inspiradoras dos perfumes para homem: rostos de uma sedução em frasco

De Cary Grant a Pharrell Williams, descubra como as musas masculinas moldaram a história dos perfumes para homem e redefiniram a sedução.

Quando o perfume procura um rosto

Um perfume não existe apenas no seu jus. Existe no imaginário coletivo, encarnado por uma silhueta, um olhar, uma voz que reconhecemos ainda antes de ler o nome da fragrância. A musa masculina é muito mais do que uma embaixadora publicitária: encarna uma promessa olfativa, uma certa ideia de masculinidade que a marca procura destilar no espírito do consumidor. Este fenómeno, que parece contemporâneo na era das redes sociais e dos contratos milionários, tem raízes muito mais antigas na história do perfume.

Durante muito tempo, as casas de perfumaria preferiram deixar o mistério atuar por si só, sem rosto imposto. O frasco, a tipografia, o nome bastavam para contar uma história. É a meados do século XX que tudo muda, quando a indústria publicitária compreende que um rosto humano, sobretudo o de um homem desejável ou admirado, multiplica de forma exponencial o poder evocador de uma fragrância.

Os pioneiros: quando Hollywood entrou no frasco

As primeiras colaborações notáveis entre perfumistas e personalidades masculinas remontam às décadas de 1950 e 1960, época em que o cinema hollywoodiano dictava os cânones da elegância viril. Cary Grant, arquétipo do gentleman anglo-saxónico refinado, cedeu a sua imagem a várias iniciativas publicitárias sem, no entanto, colocar o seu nome num jus — a distinção entre endosso e criação ainda não estava estabelecida. Foi neste período que Rochas, e depois Hermès, começaram a associar as suas fragrâncias masculinas a figuras de homens cultos, viajantes, senhores do seu destino.

A viragem chegou com a década de 1970 e a emergência do perfume como marcador identitário masculino afirmado. Paco Rabanne lançou em 1973 o seu icónico Paco Rabanne pour Homme com campanhas que mostravam um homem livre, sensual, assumindo o seu corpo — rutura clara com a sobriedade do fougère clássico burguês. A publicidade de perfume para homem abandonava o terno formal pelo tronco nu, e procurava os seus modelos entre desportistas e sedutores mediterrânicos.

A era de ouro da musa masculina: das décadas de 1990 a 2000

Se a história das musas masculinas de perfume tem um momento decisivo, é sem dúvida a campanha Obsession for Men de Calvin Klein em 1985, que projetou um jovem desconhecido chamado Mark Wahlberg — então ainda Marky Mark — para a fama internacional. A fotografia de Herb Ritts, os corpos em preto e branco, a ambiguidade perturbadora entre força e vulnerabilidade: nascia uma nova gramática visual. Iria dominar toda a década seguinte.

A década de 1990 consagra a era do top model masculino transformado em musa inspiradora. Kate Moss e os seus contemporâneos masculinos — Marcus Schenkenberg, Tyson Beckford, Antonio Sabato Jr. — invadem as páginas das revistas de beleza usando os perfumes das grandes casas. Mas é a Davidoff, com a sua fragrância Cool Water, lançada em 1988, que leva mais longe a lógica do homem idealizado: o surfista de olhos azuis, o cabelo húmido, o horizonte marítimo — uma imagem tão poderosa que ainda hoje define a estética do perfume aquático para homem. Os atores David Hasselhoff e, mais tarde, desportistas como Karl Lagerfeld, convidado surpresa, sucedem-se no universo da marca alemã.

A década encerra com um acontecimento publicitário sem precedentes: em 1995, a Chanel confia a Brad Pitt a campanha Chanel No 5 — mas trata-se de uma fragrância feminina. Este paradoxo revela algo essencial: a musa masculina pode perfeitamente encarnar o desejo feminino, e as casas não se privam disso. Egoïste da Chanel, lançado já em 1990, joga num registo diferente com campanhas muito teatrais em que o homem é retratado como caprichoso, quase tirânico nas suas paixões — a musa desaparece então em favor do conceito.

A viragem dos anos 2000: desportistas, atores e a globalização do desejo

A entrada no século XXI marca uma diversificação espetacular dos perfis escolhidos para encarnar as fragrâncias masculinas. Reformulado em 2005 sob o impulso criativo de Hedi Slimane e a direção artística da casa, escolhe Jude Law — ator britânico então no auge da carreira — para encarnar a sua visão de um homem simultaneamente sofisticado e ligeiramente melancólico. A colaboração dura vários anos e contribui para consolidar a posição no segmento de luxo da perfumaria masculina.

É também a época em que o desporto se torna um reservatório inesgotável de musas inspiradoras. A Armani, que tinha lançado Acqua di Giò em 1996 sem musa definida, multiplica as colaborações com futebolistas e desportistas internacionais para as suas linhas Armani Sport. Beckham — David, claro — torna-se o rosto mais requisitado do planeta do perfume masculino entre 2003 e 2010. A sua capacidade de encarnar simultaneamente o desempenho atlético, a paternidade assumida e o estilo urbano faz dele um embaixador ideal para fragrâncias que procuram atingir uma clientela masculina mais ampla.

O fenómeno Thierry Mugler com Angel Men — lançado em 1996 mas revitalizado por campanhas audaciosas nos anos 2000 — ilustra outra tendência: a do mistério em vez do rosto conhecido. As publicidades apostam em silhuetas andróginas, corpos esculpidos e anónimos, deixando a própria fragrância tornar-se a musa. Esta estratégia, menos comum, testemunha uma confiança absoluta no poder evocador do jus.

A era contemporânea: a musa como manifesto cultural

Desde o final da década de 2010, a escolha de uma musa masculina para um perfume tornou-se um ato editorial de pleno direito, carregado de significados culturais e políticos. A Chanel causou sensação em 2015 ao anunciar Pharrell Williams como embaixador de — primeiro artista hip-hop a representar uma fragrância masculina de uma casa de alta-costura tradicional. Esta escolha, longe de ser anódina, sinalizava a vontade da casa de expandir a sua comunidade e de reconhecer a influência da cultura urbana americana na definição contemporânea do refinamento masculino.

A Dior seguiu uma trajetória semelhante com Johnny Depp para desde 2015 — escolha que se revelou simultaneamente triunfante comercialmente e controversa no plano ético durante os processos judiciais que se seguiram. O episódio ilustra um risco inerente à estratégia de musa inspiradora: ligar a imagem de uma fragrância a um indivíduo é aceitar que a sua vida pessoal se reflita no perfume. Algumas casas tiraram a lição diversificando os seus embaixadores ou escolhendo personalidades cuja discrição é uma garantia.

A Prada surge como uma exceção calculada com a sua fragrância Luna Rossa: há vários anos, a casa italiana apoia-se no skipper francês François Gabart e no mundo da vela de competição para construir um universo de marca coerente, fundado no desempenho e na exploração em vez da celebridade tradicional. A musa torna-se aqui um especialista, um praticante apaixonado, cuja legitimidade no seu domínio valida a promessa da fragrância.

Tom Ford, cujas campanhas para Oud Wood ou Tobacco Vanille sempre jogaram com um erotismo assumido, preferiu durante muito tempo o anonimato dos modelos à notoriedade das celebridades — escolha que coloca o desejo em primeiro plano, sem que a personalidade de um ator ou de um cantor interfira na projeção que o consumidor faz. Esta abordagem, que também encontramos na Maison Margiela com Replica ou na Byredo, corresponde a uma certa ideia de perfumaria de nicho em que o jus prevalece sobre o marketing da imagem.

Hoje, à medida que a perfumaria masculina se liberta de categorias rígidas — fragrâncias florais, empoderadas, adocicadas outrora reservadas às mulheres são usadas por homens sem complexos — as musas evoluem em espelho. Timothée Chalamet para encarna desde 2023 uma masculinidade simultaneamente clássica nas suas referências e resolutamente contemporânea na sua fluidez assumida. O rosto escolhido para um perfume masculino já não é apenas um argumento de venda: é uma declaração sobre o que a masculinidade pode e deve ser num determinado momento da história cultural.