Os museus do perfume em Paris: quando o olfativo entra na história
Percorra os museus do perfume em Paris: coleções históricas, frascos de exceção e narrativas olfativas. Uma viagem pela história da perfumaria francesa.
Paris, capital mundial do perfume e da sua memória
Durante muito tempo considerada uma disciplina menor no panteão das artes, a perfumaria demorou a conquistar as paredes dos museus parisienses. No entanto, desde o século XIX, Paris concentra uma memória olfativa de uma riqueza excecional, disseminada entre algumas instituições museológicas, arquivos de casas centenárias e espaços dedicados que as grandes marcas foram progressivamente abrindo ao público. A cidade que acolhe Chanel, Guerlain ou Caron há mais de um século não podia ficar sem lugares de memória à altura deste património.
Compreender a história do perfume em Paris é também compreender como uma disciplina artesanal, nascida nas oficinas medievais e nos jardins de Grasse, adquiriu progressivamente as suas credenciais culturais. Os museus parisienses dedicados ao perfume testemunham este lento reconhecimento e oferecem hoje aos visitantes experiências que combinam história das artes decorativas, história social e educação sensorial.
O Musée du Parfum Fragonard: um espaço no IX arrondissement
É sem dúvida o endereço mais conhecido dos apreciadores de perfumaria histórica em Paris. Instalado num palacete do IX arrondissement, no boulevard des Capucines, o museu da casa Fragonard ocupa um edifício do século XIX cuja arquitetura neoclássica contrasta elegantemente com a modernidade do bairro dos Grands Boulevards. A casa de Grasse, fundada em 1926 por Eugène Fuchs e batizada em homenagem ao pintor Jean-Honoré Fragonard — natural de Grasse —, reuniu ao longo das décadas uma coleção de uma coerência notável.
As salas percorrem a história dos utensílios e das práticas perfumísticas desde a Antiguidade: alambiques de cobre que serviram efetivamente à destilação, almofarizes de pedra, frascos de vidro soprado, borrifadores de perfume em faiança de Delft. O que impressiona o visitante é menos a sofisticação das peças expostas do que o seu caráter concreto — estamos longe da abstração de um museu de arte contemporânea. Aqui, cada objeto guarda o vestígio do gesto humano que o fabricou ou utilizou. A coleção de frascos, abrangendo cinco séculos de criação em vidro e cristal, constitui por si só um panorama da história do design.
Frascos e maquilhagens: as coleções entre artes decorativas e perfumaria
Um dos aspetos mais fascinantes das coleções parisienses dedicadas ao perfume reside na porosidade entre a perfumaria propriamente dita e as artes decorativas. O frasco de perfume — este objeto híbrido, ao mesmo tempo recipiente utilitário e escultura em miniatura — foi, nos séculos XIX e XX, um terreno de experimentação para os maiores nomes do vidro e do cristal. As manufaturas de Baccarat, Saint-Louis ou da Cristallerie de Pantin forneceram assim às casas de perfume peças que hoje se encontram tanto nos museus de artes decorativas como nos museus especializados.
René Lalique constitui, neste sentido, um caso de escola. Ourives e vidreiro de génio, colaborou desde a década de 1900 com François Coty — então a transformar radicalmente a perfumaria moderna — para conceber frascos que fossem simultaneamente acessíveis financeiramente e de uma qualidade estética inédita. Esta aliança entre um nariz de génio e um artista do vidro alterou de forma duradoura a relação entre o perfume e a sua embalagem. Os museus parisienses possuem belas séries destes frascos Lalique-Coty, testemunhas de uma época em que o perfume procurava atingir um público mais vasto do que a mera aristocracia.
O Palais Galliera e o museu das Arts Décoratifs: o perfume no seu contexto de moda
Paris oferece também uma abordagem indireta mas preciosa do perfume através de duas instituições importantes. O museu des Arts Décoratifs, instalado na ala Rohan do Louvre, conserva nas suas coleções permanentes uma secção de beleza e perfumaria que recoloca o frasco no seu contexto de moda e de uso quotidiano. Encontram-se aí conjuntos de toilette completos do século XVIII, vinagreiras de prata, caixas de pó e vinagretas — essas pequenas caixas perfuradas que as damas da Regência usavam presas ao cinto para mascarar os odores da cidade por meio de vinagre aromatizado com ervas.
Estes objetos recordam que o perfume, ao longo da história, nem sempre teve a forma que hoje lhe conhecemos. Antes da destilação com alcoolizado generalizada no século XVII, os aromas eram usados sobre suportes sólidos — saquinhos de lavanda, maçãs de âmbar, luvas perfumadas. Catarina de Médicis, ao chegar à corte de França em 1533, terá introduzido consigo o seu luveiro perfumista florentino René le Florentin, que instalou a sua loja no Pont au Change. Esta anedota fundadora, que se encontra em muitas histórias da perfumaria francesa, ilustra o quanto a memória do perfume é indissociável da história política e social do país.
A Osmothèque de Versalhes: a memória olfativa fora dos muros parisienses
Rigorosamente falando, a Osmothèque não é um museu parisiense — está implantada em Versalhes, no seio do Conservatoire national des arts et métiers des parfums. Mas seria difícil evocar a memória olfativa da perfumaria francesa sem lhe dedicar algumas linhas, tão único é o seu papel no mundo. Fundada em 1990 por iniciativa do perfumista Jean Kerléo, então diretor de criação na Jean Patou, a Osmothèque conserva, sob atmosfera inerte — azoto puro, obscuridade total, temperatura constante —, reconstituições de perfumes desaparecidos ou fórmulas originais de obras marcantes.
O seu acervo compreende mais de 4 000 referências, incluindo perfumes do início do século XX reconstituídos a partir de fórmulas de arquivo. Nas sessões abertas ao público — mediante reserva —, os visitantes podem sentir perfumes como Emeraude de Coty na sua versão original de 1921, ou o primeiro Chanel antes das reformulações impostas pelas evoluções regulamentares. É uma experiência rara, quase arqueológica, que permite compreender concretamente como os padrões olfativos evoluíram num século.
Visitar os museus do perfume em Paris: o que é preciso saber
O museu Fragonard no boulevard des Capucines está aberto durante todo o ano e propõe entrada livre, o que faz dele um dos raros endereços museológicos gratuitos da capital no seu domínio. A casa dispõe ainda de um segundo espaço museológico na rue Scribe, num edifício haussmanniano, onde são apresentadas coleções complementares. Para quem deseja aprofundar a sua compreensão do ofício de perfumista, várias casas organizam ocasionalmente visitas aos seus arquivos ou aos seus laboratórios de criação — um domínio durante muito tempo zelosamente guardado que se abre progressivamente ao olhar do público.
A perfumaria parisiense tem a particularidade de estar ainda viva nos bairros históricos onde prosperou. Passear pela rue du Faubourg Saint-Honoré, percorrer a place Vendôme ou entrar nas galerias do Palais-Royal já é, por si só, praticar uma forma de museu ao ar livre, onde as boutiques centenárias convivem com os criadores de hoje. Esta continuidade entre património e criação contemporânea é talvez o que mais distingue Paris das outras capitais: a memória do perfume está aí viva, sustentada por casas que perpetuam fórmulas com várias gerações de existência ao mesmo tempo que continuam a inventar novas.