O Museu do Perfume em Grasse: uma imersão na alma olfativa da capital mundial do perfume
Descubra o Museu do Perfume em Grasse, capital mundial do perfume: coleções históricas, herança olfativa e savoir-faire grassês plurissecular.
Grasse, cidade-perfume: quando uma cidade inteira se torna património
Existem cidades cuja identidade se lê na pedra, outras cuja identidade se respira. Grasse pertence a esta segunda categoria, rara e preciosa. Encravada no interior de Nice, a poucos quilómetros do Mediterrâneo, esta cidade de sessenta mil habitantes concentra em si vários séculos de história olfativa e continua hoje a produzir uma parte significativa das matérias-primas utilizadas pela alta perfumaria mundial. Em 2018, a UNESCO inscreveu os saberes-fazer ligados ao perfume de Grasse no Património Cultural Imaterial da Humanidade, reconhecendo oficialmente aquilo que os habitantes da região já sabiam há muito: não se trata de uma indústria comum, mas de uma arte de viver transmitida de geração em geração, enraizada nos solos argilosos da planície do Siagne e nas mãos dos apanhadores de jasmim que se levantam antes do amanhecer.
É neste contexto que o Museu Internacional da Perfumaria ganha todo o seu sentido. Fundado em 1989 e totalmente renovado em 2008, ocupa um solar do século XVIII no centro histórico de Grasse, e propõe um percurso permanente excecional através de quatro mil anos de história do perfume. Nem uma simples vitrina promocional das casas locais, nem um gabinete de curiosidades empoeirado, constitui uma das instituições museológicas mais sérias e mais ricas do mundo sobre este tema.
Quatro mil anos de história em algumas salas: o percurso permanente
O Museu Internacional da Perfumaria distribui as suas coleções por quase três mil metros quadrados, repartidos entre o edifício histórico e uma extensão contemporânea. O percurso começa onde tudo começa: a Antiguidade. As primeiras salas evocam as práticas rituais do Egito antigo, onde o perfume — cujo nome latino per fumum, "através do fumo", já trai as origens — era queimado em oferenda aos deuses. Incensórios de terracota, frascos em vidro soprado, flaconetes em alabastro datados de vários milénios testemunham a sofisticação precoce destas civilizações na arte de captar os odores.
A coleção de frascos constitui, aliás, um dos tesouros do museu. Conta com mais de cinquenta mil peças, das quais uma grande parte é exposta em rotação, abrangendo todas as épocas e todas as culturas: frascos venezianos do século XVI, estojos de viagem em vermeil do século XVIII, frascos Art Nouveau assinados por Lalique ou Baccarat, até às criações contemporâneas mais audaciosas. Estes objetos não são apenas recipientes: contam a evolução do estatuto social do perfume, passado de substância sagrada a marcador de distinção aristocrática, e depois a produto de massa democratizado no século XX.
A estufa e os jardins: quando a botânica se junta ao olfativo
Uma das singularidades do Museu Internacional da Perfumaria reside nos seus espaços exteriores. O museu dispõe de uma propriedade agrícola anexa, La Bastide du Roy, antiga residência real do século XVI situada nos arredores da cidade, onde são cultivadas as plantas de perfume emblemáticas da região: rosa centifolia, jasmim de Grasse, tuberosa, immortelle. Estas culturas permitem ao museu ligar concretamente o objeto exposto à sua matéria-prima viva, oferecendo aos visitantes uma compreensão sensível que nenhuma enciclopédia pode substituir.
Nos jardins contíguos ao edifício principal, plantações pedagógicas permitem identificar os vegetais mais comummente utilizados em perfumaria. Lavanda, gerânio rosat, mimosa, íris: estes nomes familiares dos rótulos de perfumes encontram aqui a sua realidade botânica. Esta dimensão vegetal é essencial em Grasse, onde o cultivo da rosa de maio — a Rosa centifolia, colhida à mão durante duas a três semanas todas as primaveras — permanece uma prática agrícola viva, ainda que as superfícies cultivadas tenham diminuído consideravelmente ao longo do século XX sob a pressão da urbanização.
As técnicas grassenses: enfleurage, destilação e extração
O museu dedica uma secção importante aos processos de extração das matérias odoríferas, e é aí que o visitante compreende porque é que Grasse se tornou o que é. Tudo começa na Idade Média com a curtumaria: Grasse era então reputada pelas suas luvas em pele, exportadas por toda a Europa. Para mascarar o odor das peles tratadas, os artesãos começaram a perfumá-las com as flores abundantes do interior — e uma indústria nascia. Já no século XVI, a cidade contava com perfumistas-luveiros cuja reputação atingiu as cortes reais. Catarina de Médicis, que tinha introduzido na corte da França os perfumes italianos do seu país natal, mandou vir luvas perfumadas de Grasse. O destino da cidade estava selado.
As três grandes técnicas apresentadas no museu testemunham o génio grassense face aos desafios colocados pelas flores mais frágeis. A destilação a vapor de água, herdada dos alquimistas árabes e transmitida à Europa via Espanha mourisca, convém a matérias resistentes ao calor: lavanda, alecrim, gerânio. O enfleurage a frio, técnica tão poética quanto exigente, consiste em depositar as flores frescas — jasmim ou tuberosa, cujas moléculas aromáticas são demasiado delicadas para suportar o calor — sobre bastidores de vidro untados com gordura animal purificada, chamada corpo gordo. As pétalas, renovadas diariamente durante semanas, cedem progressivamente as suas moléculas odoríferas à matéria gorda, que é depois enxaguada com álcool. Esta técnica, abandonada industrialmente na década de 1960, é hoje preservada por alguns artesãos e certas casas de nicho que dela fazem um argumento de distinção. A extração por solventes voláteis, por fim, foi progressivamente substituindo estes métodos ancestrais a partir do século XIX, produzindo os concretos e absolutos que constituem ainda hoje a base de muitos grandes perfumes.
Grasse hoje: entre herança viva e renovação criativa
Visitar o Museu Internacional da Perfumaria é também tomar a medida das tensões que atravessam a perfumaria grassense contemporânea. Por um lado, as grandes casas — Chanel, que cultiva ela própria a sua rosa de maio e o seu jasmim em terras adquiridas na década de 1980; LVMH, que comprou vários domínios agrícolas — optaram por reinvestir nas culturas tradicionais para garantir o seu abastecimento em matérias-primas de excelência. Por outro lado, a regulamentação internacional, encarnada nomeadamente pelas restrições da IFRA sobre certas moléculas naturais consideradas alergénicas, coloca sob pressão ingredientes tão emblemáticos como a mousse de carvalho ou o absoluto de jasmim.
O museu não se esquiva a estas questões. Alguns espaços são dedicados aos desafios contemporâneos da perfumaria: sustentabilidade dos abastecimentos, química verde, novas técnicas de extração como o CO2 supercrítico. Esta honestidade intelectual distingue a instituição de um simples museu comemorativo: assume ser um lugar de reflexão sobre uma arte em perpétua evolução. As exposições temporárias, regularmente renovadas, abordam temas tão variados como o perfume na literatura, as representações olfativas nas artes visuais, ou a história do marketing do perfume no século XX — com os seus cartazes publicitários, as suas campanhas fotográficas, as suas embaixadoras. Para quem se interessa pela perfumaria com um olhar simultaneamente histórico, sensorial e crítico, o Museu Internacional da Perfumaria em Grasse continua a ser uma etapa que nada substitui verdadeiramente.